Olhares

Uma mostra de cinema indígena é mais do que um conjunto de filmes ordenados em um programa. O que está envolvido aqui é a responsabilidade de desconstruir 520 anos de história contada pelo ponto de vista do colonizador e de demonstrar para o público as perspectivas, sentimentos, percepções dos povos indígenas sobre quem eles são e sobre as trocas interculturais com os não-indígenas.

Como disse o curador e cineasta indígena David Hernández Palmar em artigo sobre curadoria no cinema indígena: “Nossa curadoria não é a que exerce o poder da seleção e da unção do especialista, mas é a decisão que cada filme deve nos curar, prestar homenagem aos processos de difusão do direito ao cinema e à comunicação dos povos indígenas”.

Assim, ao darmos visibilidade ao cinema indígena, estamos mobilizando uma cura de uma ferida ancestral causada pelas violências simbólicas e físicas do colonialismo do passado e de suas expressões contemporâneas e, antes de tudo, estamos afirmando a necessidade de conhecer e dar visibilidade à arte e à comunicação indígena. O cinema indígena é uma porta para universos de sentidos que estão sobrevivendo às violências da colonização, que resistem, criativos, vivos e belos, mas muitas vezes esquecidos ou invisibilizados.

As mulheres indígenas tiveram vivências específicas neste contexto histórico, e também têm olhares e agências únicas em suas culturas. Suas percepções de mundo dizem muito tanto sobre as culturas indígenas como sobre a história destes 520 anos de encontro e confrontos coloniais.

No contexto brasieliro, a produção audiovisual em que mulheres indígenas assumem a direção ainda não são muitas, mas este número encontra-se em expansão. Aos poucos as mulheres vão assumindo as brechas, participando de oficinas de audiovisual nas aldeias, integrando coletivos e denominando-se cineastas. Com isso, a presença das mulheres no audiovisual tem se fortalecido: o cinema por elas produzido têm ganhado espaço nas telas, coletivos e mostras de cinema. Elas encabeçam seus próprios projetos, representam seus povos, suas culturas e o Brasil mundo afora em eventos e festivais de cinema.

Estas cineastas corajosas que traçam percursos únicos na produção cultural de nosso país nos mostram a importância da diversidade étnica e de gênero nas produções audiovisuais; com seu cinema enriquecem também o olhar de quem vai absorver essa arte. 

Por Joana Brandão e Olinda M. Wanderley